Passagens

Joana Traub Csekö
19 de Abril a 21 de Maio de 2011

Toda a força da imagem de entrelaçar espaços e tempos distintos se apresenta em Passagens, série em que Joana Traub Csekö configura pequenos contos urbanos. Fotografias colecionadas em feiras paulistanas de antiguidades - praias, cachoeiras, retratos, a mulher com um cão - são sobrepostas, criando continuidades inesperadas. Imagens inéditas, como as de portarias déco no Rio de Janeiro (onde vive a artista) e árvores centenárias nas ruas de São Paulo, onde a exposição acontece, são integradas em um jogo de apropriações e encontros com que a artista explora a contaminação do natural no urbano. É o movimento próprio das ambivalências e das visões parcialmente reveladas que esboça o modo de aproximação da artista com impressões, memórias e projetos extraídos de camadas íntimas e vitais da cidade. A presença simultânea dos galhos em contraluz, capturados pela artista em suas caminhadas paulistanas leva a melancolia no perfil de uma mulher, cuja fotografia foi coletada ao acaso, a se disseminar na imagem, para além dos detalhes de renda entrevistos em seu vestido. Personagens, cenários e tramas de diferentes procedências experimentam aqui intensas relações, participam então do fragmento de uma história, enquanto outras são apagadas, como quando a névoa vela a identidade de um passante e concede às árvores suspensão e mistério. Já na sequência de enquadramentos de portarias cariocas, com seus planos e contra-planos, são as dobras internas do espaço que se acumulam em camadas. A arquitetura revestida com texturas e cores de pedras decorativas tanto expressa a potência construtiva do fenômeno urbano como afirma um controle imaginário sobre a natureza. Ali, onde se delimita o trânsito para a vida privada, a busca da simetria impõe, a quem chega, ordem e orientação, mas a reflexão mútua dos espelhos, que o enquadramento da artista desdobra ainda mais uma vez, transborda os limites da arquitetura. Portas laterais, escadas, janelas e nichos - passagens -, anunciam uma segunda existência desses lugares que a arqueologia ficcional de Joana vem a revelar. É o que acontece quando uma cachoeira irrompe do patamar da escadaria de mármore, deságua no retilíneo tapete vermelho de um hall em tons rochosos: a perturbadora existência compartilhada altera ambas as paisagens. Cada breve ficção é insinuada por ressonâncias espaciais que são ativadas tanto dentro como fora da fotografia incluindo, além da cidade, a galeria e o observador no jogo imaginário entre espaços justapostos. Desenvolvida desde 2010, Passagens convoca o olhar ao movimento, embora nenhum percurso possa ser antecipado. A simplicidade da manipulação da fotografia cria deslocamentos, veladuras e lugares que por sua vez levam a outros. Quando o que pousa sobre a imagem é uma outra, há um estranhamento, como se algo que deveria ter permanecido oculto lentamente viesse à emergir.

Luiza Interlenghi, abril de 2011

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