Delirios e Verão

Gilvan Nunes
9 de Fevereiro a 11 de Março de 2011

O trabalho de Gilvan Nunes resulta, frequentemente, da fusão de duas genealogias historicamente opostas: a do fazer manual, de longa tradição nas artes, entendidas como ofícios que dependem, sobretudo da habilidade e domínio técnicos do artista, e a do projeto, cujo sentido reside na antecipação da obra pela idéia, que legítima tanto a apropriação de objetos já feitos (Duchamp) como a terceirização do fazer, tal como ocorre na arquitetura e no design. Se por um lado o fazer manual é, portanto, para este artista um modo processual indissociável de seu pensamento artístico e elaboração poética – Gilvan parece pensar com as mãos – ele comumente cria limites para este fazer a partir de procedimentos impessoais como a apropriação, a impressão, a colagem e a assemblage. As pinturas aqui mostradas, no entanto, fogem à lógica acima exposta. São paisagens imaginárias, nas quais motivos florais e vegetais permitem a organização processual, expressiva e matérica da superfície das telas no próprio fazer que, no caso reina absoluto.
Nessas torções e deslocamentos reside a força e o interesse poético dos trabalhos de Gilvan Nunes, testemunhos visuais da hibridização, da edição de fragmentos de práticas distintas, e até contraditórias, que caracterizam tanto a vida quanto a arte contemporânea.

Fernando Cocchiarale

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