Faceless

Adams Carvalho
24 de Novembro a 29 de Janeiro de 2011

Na exposição ‘Faceless’, são apresentadas três séries de pinturas que tratam da ausência, silêncio e distanciamento.

A série “Faceless” (que dá nome à exposição) é composta de pequenos retratos, ou melhor, quase-retratos. Cenas onde aparecem ‘close-ups’ de preguiçosos corpos femininos repousando em espaços domésticos. Corpos coadjuvantes que discretamente disputam lugar com estampas, cores e texturas.
Os enquadramentos - que excluem rostos, mãos e pés – focalizam um ponto central de equilíbrio instável entre a figura e os elementos que a envolvem.
A desinteressada atitude e psicologia das eventuais personagens pouco importam na composição, se comparadas ao papel exercido pelos componentes cênicos, como os figurinos e cenários.
Os cenas são tratadas de maneira fluida e fortuita, com pinceladas rápidas e sobreposições de finas e semi-transparentes camadas de tinta. É como se ali não houvesse corpo ou matéria, só houvesse superfície - uma fina película oscilante num enfrentamento direto com a superfície da tela. Nesse sentido, o tratamento pictórico dessas imagens diz menos sobre os motivos pintados do que sobre a presença deles, restando apenas um conhecimento ligeiro e imperfeito das coisas.

Na série “Wall Floors”, duas grandes imagens de pisos domésticos compõem as pinturas; o  foco se fecha em apenas um elemento – a perspectiva visual de tacos de madeira.
Aqui há a disputa entre a padronagem gráfica que a compõe e a perspectiva que ela sugere. Um desequilíbrio entre a bidimensionalidade da tela e a virtualização do espaço ali sugerido. Uma instabilidade entre matéria física e ilusão.
A imagem do que seria um chão se torna parede por abranger toda a área da tela e o que é tela se torna buraco induzido pela ‘trompe-l’oeil’ dos pequenos retângulos que constituem a padronagem dos tacos de madeira representados.
Esvaziados da presença humana, esses ambientes se vêem atravessados por uma luminosidade estranha e fantasmática.
Nesses quase-abismos, o tempo – suspenso – dá lugar às sutilezas e nuances daquilo que normalmente escapa à percepção fugidia da rotina cotidiana.

Na série “Bad beds”, imagens de camas meio bagunçadas se comportam menos como elementos cênicos do que como personagens.
Um par de travesseiros compõe a parte superior da cena, enquanto na parte inferior um lençol sugere que apenas uma pessoa passou por ali.
Essa narrativa - estranhamente incômoda - se desenlaça entre poucas e ineficazes cores frias e escorridas manchas de tinta. Aqui a matéria, também oca e fugidia, se esquiva dela mesma; ela se derrete e se desmancha numa tentativa inapropriada de se apresentar como imagem.

Nas três séries, o foco se fecha quase demasiadamente em objetos e/ou pessoas fazendo com que estes pareçam deixar de ser eles mesmos, como uma ‘não-busca’ pela sua essência e materialidade. Os enquadramentos, quase como num zoom fotográfico, parecem mais distanciar os elementos visuais do que aproximá-los.
As pinturas repousam num fino vácuo instável entre aparência e representação; elas rondam a incomunicabilidade e o que se pode pensar por uma confortável solidão.
Num desvelado clima de intimismo, essas imagens parecem indicar que,  frente ao rasteiro e rotineiro desenrolar cotidiano, os elementos que nos rodeiam estão sempre prestes a transbordar de sua mera condição de coisas.

Adams Carvalho
Novembro de 2010

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